Paciente com necessidades especiais (PNE) é aquele indivíduo que apresenta qualquer tipo de condição que o faça necessitar de atenção diferenciada por um período de sua vida (gestante, paciente em tratamento de câncer) ou indefinidamente(deficiência física, mental). Essas pessoas necessitam de cuidados médicos e odontológicos direcionados para sua condição, por isso os profissionais da área de saúde devem estar preparados para oferecer um tratamento específico e de qualidade.

A especialidade Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais é recente, foi reconhecida em 2001, por isso muitos cirurgiões-dentistas não obtiveram conhecimento suficiente para atender estes pacientes, gerando algumas dificuldades no seu manejo, inviabilizando o tratamento odontológico.

A Associação Brasileira de Odontologia para Pacientes Especiais (Abope) nasceu em 1979 e tem o objetivo de reunir profissionais ligados, direta ou indiretamente, à Odontologia voltada para pessoas portadoras de necessidades especiais, para troca de experiências e conhecimentos nesta área da Saúde.

A abordagem da criança com algum tipo de impedimento, anormalidade nas suas características fisiológicas e/ou psíquicas requer um cuidado diferenciado do profissional e da sua equipe, pois se trata de um paciente vulnerável que necessita além dos cuidados especiais, adaptações, para uma assistência odontológica eficiente.

Pode-se considerar dois tipos de pacientes com necessidades especiais(PNE), aqueles com comprometimento sistêmico e os que se tornam especiais por problemas no sistema estomatognático. É necessário que o tratamento de um paciente com PNE, seja condicionado ao conhecimento de desvios da normalidade e permita direcionar ou individualizar o atendimento.

Pacientes com necessidades especiais incluem, também, os indivíduos com desordens ou condições que se manifestam somente no complexo orofacial (ex: amelogênese imperfeita, dentinogênese imperfeita, fissura lábio-palatal, câncer oral). Embora esses pacientes não apresentem as mesmas limitações físicas ou de comunicação de outros pacientes com necessidades especiais, suas necessidades são específicas e têm impacto em sua saúde geral, necessitando, portanto, de abordagem odontológica especializada.

Partindo-se do pressuposto de que o consultório odontológico é um local de acesso ao público, uma limitação em acomodar pacientes com necessidades especiais pode ser considerada uma discriminação. Portanto, os consultórios odontológicos devem oferecer condições de acesso para esses pacientes (ex. rampas para cadeira de rodas e espaços no estacionamento) (ADA, 2008).

Um dos desafios do tratamento odontológico de pacientes com necessidades de cuidados especiais é o manejo do comportamento. O comportamento da maioria dos pacientes com incapacidade física e/ou mental pode ser controlado no consultório odontológico com o auxílio dos pais ou responsáveis. A contenção física pode ser útil para os pacientes (deficientes mentais profundos, movimentos involuntários, paralíticos cerebrais) em que as técnicas tradicionais de manejo do comportamento não foram eficazes. Quando a contenção física não for suficiente para viabilizar o atendimento odontológico, podem ser utilizadas outras técnicas, tais como sedação ou anestesia geral. Quando não for possível realizá-las no consultório odontológico, o atendimento em ambiente hospitalar pode oferecer facilidade cirúrgica e segurança, sendo o local mais indicado para executar o tratamento.

Segundo Sabbagh Haddad, 2007, os pacientes com necessidades especiais podem ser classificados:

  • Deficiência mental (desvios da inteligência)
  • Deficiência física (paralisia cerebral, lesão medular, paralisia infantil, deficiência motora limitantes)
  • Anomalias congênitas (deformações, síndromes)
  • Distúrbios comportamentais (autismo, hiperatividada, TDAH -Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade)
  • Transtornos psiquiátricos (esquizofrenia, depressão, transtornos alimentares, pânico)
  • Distúrbios sensoriais e de comunicação (deficiência auditiva, visual, fala)
  • Doenças sistêmicas crônicas (diabetes, cardiopatias, doenças hematológicas, insuficiência renal crônica, doenças auto imunes, doenças vesículo bolhosas)
  • Doenças infectocontagiosas (hepatites, HIV, tuberculose)
  • Condições sistêmicas (irradiados, transplantados , oncológicos, gestantes, imunocomprometidos)

Existem dificuldades específicas para o tratamento ao PNE como, motoras, comunicação, macroglossia, apinhamento dental, grau de limitação física, graus de risco anestésico, idade da criança e dificuldades não-específicas como a falta de profissionais habilitados, barreiras arquitetônicas, discriminação, falta de apoio familiar, entre outras. De qualquer forma a abordagem deve ser realizada de forma adequada para promover a saúde bucal desses pacientes, guiado pelo conceito de igualdade para todos, realizando em todos os pacientes uma anamnese detalhada e a primeira necessidade básica a realizar é o termo de consentimento autorizando o tratamento pelos pais ou responsáveis.

Medidas para contornar dificuldades

Cardiopatias Congênitas e febre reumática

São pacientes que estão sujeitos a endocardite bacteriana, devendo receber cobertura antibiótica. O uso de adrenalina na composição anestésica seguirá a orientação médica trazida pelo paciente.

Epilépticos

É imprescindível as medidas preventivas de higiene oral, devido a fibrotomatose gengival dilnatínica (anticonvulcionantes e higiene bucal inadequada). Nos casos de crise convulsiva no consultório, deve-se esperar a crise passar e colocar o paciente em decúbito lateral, em posição de trendenlenburg (variação da posição de decúbito dorsal onde a parte superior do dorso é abaixada e os pés são elevados) e colocar abridor de boca.

Síndrome de Down

A maioria dos pacientes com síndrome de down apresentam alterações nas estruturas dentárias, assim como desarmonias oclusais. O desenvolvimento mental é deficiente em relação a uma pessoa normal, podendo ocorrer em diferente graus. Entre os deficientes mentais, esse paciente pode ser considerado um dos melhores para o tratamento odontológico considerando o comportamento. Pode-se utilizar técnicas de trabalho com o reforço positivo, dizer mostrar e fazer, semelhante aos demais pacientes de odontopediatria.

Deficiência Mental

Para esses pacientes a incidência de cárie e gengivite geralmente é alta e tem como fator etiológico a incapacidade em manter a higiene bucal adequada, respiração bucal, anormalidade de oclusão, dieta cariogênica e efeito de medicamentos. O grau de deficiência regula o condicionamento desses pacientes ao cuidado odontológico.

Autistmo

Os pacientes com autismo estão entre os indivíduos portadores de alterações comportamentais que causam maior dificuldade para a atenção odontológica. Esses pacientes reagem exageradamente a estímulos sensoriais, como o toque, e exige cuidado em relação aos ruídos do equipamento e sabores desagradáveis dos medicamentos. Quando as técnicas de manejo psicológico falharem, o uso de sedação é uma alternativa, porém, a assistência sobre anestesia geral em ambiente hospitalar é mais segura e indicada nos casos de urgência e de necessidade de tratamento cirúrgico/restaurador.

Deficiência Visual

A falta de visão condiciona a uma determinada intranquilidade e desconfiança, o condicionamento desse paciente deve ser por meio de recursos verbais, táteis e explicando todo o procedimento antes de execução. Fatores como a disposição física do consultório e a participação da pessoas envolvidas diretamente com o paciente deve ser considerada.

Deficiência Auditiva

O condicionamento do paciente deve ser feito através de estímulos visuais e táteis, para reforçar a habilidade auditiva. O cirurgião-dentista deve trocar as máscaras tradicionais por viseiras transparentes, pois a comunicação com estes pacientes é, exclusivamente, pelo sentido visual, desta forma será facilitada a comunicação entre profissional e paciente, expressando-se de forma clara e lenta. Quando necessário a comunicação pode ser através de gestos ou sinalização.

Referências

SILVA et al. Manejo de Pacientes com Necessidades Especiais nos Cuidados da Saúde., Manual de Referência abo-odontopediatria., 1 Ed, 2009

ASSIS, Cíntia de. Dentistas para lá de especiais. Rev. Bras. Odontol.,  Rio de Janeiro ,  v. 71, n. 1, jun.  2014 .

ANDRADE, Ana Paula Paiva de  e  ELEUTEIO, Adriana Silveira de Lima. Pacientes portadores de necessidades especiais: abordagem odontológica e anestesia geral. Rev. Bras. Odontol, 2015

TOLEDO, O. A. Odontopediatria: fundamentos para a prática clínica. São Paulo: 4 Ed, Editora Medbook, 2012.

American Dental Association. Americans with Disabilities Act(AwDA). Available at: http://www.ADA.org. Accessed September 23, 2008.