Reabilitação Oral
PPR digital versus convencional: o que a evidência recente mostra sobre desfechos do paciente
A comparação entre fluxos digitais e convencionais para estruturas de PPR deve considerar adaptação e experiência do paciente, sem transformar tecnologia em indicação ou promessa de superioridade universal.
Para quem planeja uma prótese parcial removível (PPR), a pergunta clínica central não é qual fluxo parece mais moderno. É quais resultados podem ser esperados para aquela pessoa, dentro das condições biológicas e do planejamento do caso. A literatura recente permite discutir fluxos digitais e convencionais com mais precisão, mas não autoriza tratá-los como indicação em si ou equivalentes em toda situação.
O que foi comparado nas pesquisas
Uma revisão sistemática de 2026 reuniu 14 estudos clínicos que compararam estruturas de PPR digitais e convencionais. Foram considerados adaptação, parâmetros periodontais, eficiência mastigatória, estomatite protética, peso, instalação, ajuste, estabilidade e refabricação, além de satisfação, qualidade de vida relacionada à saúde bucal e preferência [1]. Os fluxos, porém, combinam formas específicas de escaneamento, delineamento, material, modelo e fabricação; “digital” não descreve automaticamente um único desempenho clínico.
Adaptação: resultados que pedem leitura cuidadosa
No resumo da revisão, não houve diferença estatisticamente significativa na adaptação dos apoios [1]. Dois ensaios randomizados cruzados de 2025, ambos em PPRs maxilares e com 58 participantes, ajudam a explicar por que uma conclusão única seria simplista.
Em um ensaio, o fluxo digital direto apresentou melhor assentamento e melhor adaptação na faixa posterior do conector maior em avaliações de especialistas, mas não houve diferença na adaptação global dos conectores maiores [2]. No outro, a comparação entre escaneamento intraoral, fusão seletiva a laser e técnica de cera perdida não identificou diferença estatística de adaptação [3]. Um possível ganho localizado não é garantia de ajuste superior para toda PPR nem pode ser transferido automaticamente para mandíbula, outros desenhos ou métodos.
Satisfação e qualidade de vida não são o mesmo desfecho
A revisão relatou maior satisfação com o fluxo digital; no mesmo resumo, qualidade de vida relacionada à saúde bucal e preferência foram semelhantes [1]. Já um dos ensaios encontrou satisfação semelhante entre as duas próteses aos sete dias; ambos os grupos melhoraram a qualidade de vida em relação à linha de base [3]. Tempos de avaliação, desfechos e configurações diferem entre estudos. A evidência não sustenta prometer maior satisfação em todos os pacientes.
Como usar essa evidência no planejamento
Defina primeiro a indicação, o planejamento e o desenho da PPR a partir do caso e das condições biológicas; o fluxo não substitui essas etapas. Ao discutir um fluxo digital, explique qual etapa será digitalizada ou fabricada digitalmente e evite usar o termo como sinônimo de melhor adaptação, conforto ou satisfação. Acompanhe assentamento, adaptação e experiência do paciente, reconhecendo os cenários específicos estudados [1-3].
As fontes consultadas não respondem a custo, número de consultas, infraestrutura, capacitação, disponibilidade de laboratório ou retorno financeiro no Brasil. Esses pontos devem ser investigados localmente, e não convertidos em resultados da evidência comparativa disponível.
O que ainda não sabemos
A revisão recente foi acessada pelo resumo, sem análise detalhada disponível de risco de viés, estimativas de efeito ou subgrupos por material, classe de Kennedy e tipo de fluxo [1]. Os ensaios acessados têm cenário de PPR maxilar e acompanhamento curto para alguns desfechos [2,3]. Não se pode concluir equivalência de longo prazo, durabilidade, custo-efetividade, indicação individual ou aplicabilidade para toda a infraestrutura brasileira.
Mensagem prática
Os fluxos digitais são alternativa viável nos cenários estudados, com achados promissores em alguns aspectos de adaptação e satisfação. A decisão clínica continua individualizada e a comunicação deve evitar promessas generalizadas. Este artigo complementa — sem duplicar — o conteúdo básico já existente sobre PPR, ao focar na comparação contemporânea de fluxos e desfechos relatados pelo paciente [4].
Referências
Lucas Cavalcante de Sousa; Maria Eduarda Lemos Avelino; Adriana da Fonte Porto Carreiro; Belmiro Cavalcanti do Egito Vasconcelos; Marianne de Vasconcelos Carvalho; Sandra Lúcia Dantas Moraes. Clinical and patient-centered outcomes of digitally and conventionally fabricated removable partial denture frameworks: A systematic review and meta-analysis. PubMed, 2026.
Consultar referência 1 ↗Ning Gan; Mengxin Yao; Yaye Ruan; Chengyi Wang; Yaoyang Xiong; Ting Jiao. Adaptation of maxillary removable partial denture frameworks fabricated with a direct digital workflow: A randomized crossover clinical trial. PubMed, 2025.
Consultar referência 2 ↗Chenyuan Zhu; Mengxin Yao; Chengyi Wang; Yaye Ruan; Jiajun Ming; Haixin Qian; Ting Jiao. Clinical efficacy of maxillary digital removable partial dentures based on direct intraoral scanning and selective laser melting technology: a double-blind randomized controlled crossover clinical trial. PubMed, 2025.
Consultar referência 3 ↗odontologistas. Prótese Parcial Removível. Catálogo público Odontologistas, 2017.
Consultar referência 4 ↗
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