Reabilitação Oral
Moldagem na Implantodontia
Além do correto planeamento protético e cirúrgico, um dos fatores determinantes para o sucesso das reabilitações sobre implantes é a obtenção de uma prótese com adequada adaptação passiva. A transferência precisa da posição tridimensional dos implantes para o modelo de trabalho ou ambiente digital é, portanto, uma etapa fundamental do tratamento. Erros durante esse processo podem contribuir para o desajuste da estrutura protética e gerar complicações tanto biológicas quanto mecânicas. Entre as possíveis consequências estão o acúmulo de biofilme e a inflamação dos tecidos peri-implantares, além de complicações mecânicas, como afrouxamento ou fratura de parafusos, concentração inadequada de tensões e alterações oclusais. Embora uma adaptação absolutamente passiva seja difícil de ser obtida clinicamente, o objetivo deve ser sempre minimizar as discrepâncias entre a prótese e os implantes.
Moldagem convencional
Na técnica convencional, a precisão do modelo de trabalho depende de diferentes fatores, incluindo o material utilizado, a técnica de moldagem, o número e a angulação dos implantes, o posicionamento dos transferentes e a estabilidade dos componentes durante o procedimento. Entre os materiais elastoméricos empregados, a silicona de adição (polivinilsiloxano – PVS) destaca-se pela excelente estabilidade dimensional, boa reprodução de detalhes e resistência ao rasgamento. O poliéter também é amplamente utilizado em moldagens de implantes devido às suas propriedades de precisão e estabilidade. Basicamente, duas técnicas podem ser utilizadas: Moldeira fechada – técnica indireta ou de transferência: Os transferentes permanecem conectados aos implantes durante a remoção do molde. Posteriormente são removidos, conectados aos análogos e reposicionados no interior da moldagem. É uma técnica frequentemente utilizada em situações mais simples, como implantes unitários ou pequenos segmentos. Moldeira aberta – técnica direta ou de arrasto: Os transferentes permanecem retidos no material de moldagem e são removidos juntamente com o molde após serem desparafusados dos implantes. Essa técnica é particularmente importante quando existem múltiplos implantes e quando se procura aumentar a fidelidade na transferência de suas posições. Independentemente da técnica, o transferente deve estar completamente assentado sobre o implante ou intermediário protético antes da moldagem. Quando houver dúvida quanto à adaptação, a confirmação radiográfica pode ser indicada.
Moldagem de múltiplos implantes
Nas reabilitações envolvendo vários implantes, especialmente nas próteses fixas de arco completo, a precisão da transferência torna-se ainda mais crítica. Uma estratégia tradicional consiste na união dos transferentes de moldagem, normalmente utilizando resina acrílica associada ou não a estruturas auxiliares. O objetivo é reduzir a movimentação individual dos componentes durante a moldagem e aumentar a fidelidade do posicionamento dos análogos no modelo de trabalho. Estudos comparando técnicas convencionais demonstraram bons resultados para a técnica de moldeira aberta com transferentes unidos, particularmente em situações envolvendo múltiplos implantes. Entretanto, a evolução da odontologia digital modificou significativamente esse fluxo de trabalho.
Moldagem digital com scanners intraorais
Com os scanners intraorais (IOS), a posição tridimensional dos implantes pode ser registrada digitalmente, reduzindo ou eliminando etapas relacionadas aos materiais de moldagem, moldeiras e modelos convencionais. Nesse fluxo, são utilizados componentes específicos denominados scan bodies, conectados aos implantes ou aos intermediários protéticos. O scanner registra a geometria desses componentes e o software identifica sua posição espacial. Essas informações são então relacionadas às bibliotecas digitais correspondentes aos sistemas de implantes e utilizadas no fluxo CAD/CAM para o desenho e fabricação da prótese. Além de simplificar determinadas etapas clínicas e laboratoriais, o fluxo digital proporciona vantagens como maior conforto para o paciente, visualização imediata da aquisição, possibilidade de repetir áreas específicas do escaneamento e integração direta com sistemas CAD/CAM. Entretanto, a precisão da moldagem digital não depende exclusivamente da qualidade do scanner. Diversos fatores podem interferir no resultado, entre eles: tipo e geometria do scan body; scanner intraoral utilizado; estratégia e sequência de escaneamento; distância entre os implantes; distribuição dos implantes no arco; extensão da área escaneada; experiência do operador; características anatómicas do arco; técnicas auxiliares empregadas durante o escaneamento. Revisões sistemáticas demonstram que esses fatores podem influenciar significativamente a precisão das moldagens digitais. A própria geometria dos scan bodies, por exemplo, pode interferir tanto na precisão quanto na veracidade (trueness) da posição registrada digitalmente.
E nos protocolos de arco completo?
E nos protocolos de arco completo? Esse é provavelmente um dos pontos mais importantes da discussão atual. Em implantes unitários e reabilitações parciais, o fluxo digital encontra-se bem estabelecido. Entretanto, em próteses implantossuportadas de arco completo, pequenas discrepâncias acumuladas durante o escaneamento podem produzir alterações na relação tridimensional entre implantes distantes. As evidências mais recentes são promissoras. Cai et al. (2024), numa revisão sistemática e meta-análise envolvendo 49 estudos, encontraram precisão clinicamente aceitável dos scanners intraorais em arcos edêntulos, embora tenham ressaltado a necessidade de mais estudos clínicos. Floriani et al. (2023), em outra revisão sistemática e meta-análise, encontraram precisão linear média de 137,86 μm para moldagens digitais com IOS e 182,51 μm para moldagens convencionais. Entretanto, os próprios autores demonstraram que os resultados variam conforme o scanner, o scan body, a estratégia de escaneamento e as técnicas auxiliares empregadas. Uma revisão mais recente de Pesce et al. (2024) encontrou resultados heterogêneos entre os estudos, embora a maioria das investigações clínicas tenha apresentado precisão dentro de limites considerados clinicamente aceitáveis. Portanto, não é adequado considerar simplesmente que a moldagem digital seja sempre superior à convencional. A indicação deve considerar o cenário clínico, o sistema utilizado e o protocolo de aquisição. Fotogrametria: um novo passo no fluxo digital Nos casos de múltiplos implantes e principalmente nas reabilitações de arco completo, outra tecnologia vem ganhando importância: a estereofotogrametria. Diferentemente do scanner intraoral convencional, esses sistemas são especificamente desenvolvidos para registrar com elevada precisão a posição tridimensional dos implantes por meio de componentes de referência conectados aos implantes ou intermediários. Revisões sistemáticas recentes indicam resultados favoráveis à fotogrametria para o registro da posição dos implantes em arcos completos. Uma meta-análise publicada por Pozzi et al. (2025), por exemplo, comparou diretamente a estereofotogrametria aos scanners intraorais nesse cenário. Isso não significa necessariamente substituir o scanner intraoral. Os sistemas podem desempenhar funções complementares: enquanto a fotogrametria registra com elevada precisão a relação espacial entre os implantes, o IOS pode registrar tecidos, dentes, oclusão e demais referências anatómicas necessárias ao fluxo protético.
Convencional ou digital?
Não existe uma única técnica ideal para todas as situações. Na moldagem convencional, fatores como seleção do material, assentamento dos transferentes, técnica de moldeira aberta ou fechada e eventual união dos componentes interferem diretamente na precisão. No fluxo digital, o mesmo princípio permanece, mas novas variáveis são introduzidas: scanner, scan bodies, estratégia de aquisição, software e extensão do escaneamento. A tecnologia mudou. O objetivo biológico e protético, entretanto, permanece exatamente o mesmo: transferir com a maior fidelidade possível a posição tridimensional dos implantes para permitir a confecção de uma prótese com adequada adaptação passiva. Quanto maior a precisão dessa transferência, melhores serão as condições para reduzir tensões indesejadas e minimizar complicações biológicas e mecânicas da reabilitação.
Referências
CAI, Z. Z.; LI, X.; WU, X. Y.; LAI, H. C.; SHI, J. Y. Does intra-oral scan improve the impression accuracy of full-arch implant-supported prostheses: a systematic review and meta-analysis. Clinical Implant Dentistry and Related Research, v. 26, n. 5, p. 847–861, 2024. DOI: 10.1111/cid.13321. FLORIANI, F. et al. Linear accuracy of intraoral scanners for full-arch impressions of implant-supported prostheses: a systematic review and meta-analysis. European Journal of Dentistry, v. 17, n. 4, p. 964–973, 2023. DOI: 10.1055/s-0042-1758798. JOENSAHAKIJ, N.; SERICHETAPHONGSE, P.; CHENGPRAPAKORN, W. The accuracy of conventional versus digital (intraoral scanner or photogrammetry) impression techniques in full-arch implant-supported prostheses: a systematic review. Evidence-Based Dentistry, v. 25, n. 4, p. 216–217, 2024. DOI: 10.1038/s41432-024-01045-z. PESCE, P. et al. Accuracy of full-arch intraoral scans versus conventional impression: a systematic review with a meta-analysis and a proposal to standardise the analysis of the accuracy. Journal of Clinical Medicine, v. 14, n. 1, p. 71, 2024. DOI: 10.3390/jcm14010071. POZZI, A. et al. Photogrammetry versus intraoral scanning in complete-arch digital implant impression: a systematic review and meta-analysis. Clinical Implant Dentistry and Related Research, v. 27, n. 3, e70059, 2025. DOI: 10.1111/cid.70059.
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