Endodontia
Isolamento absoluto passo a passo: grampos, técnicas de colocação e o que a evidência mostra
Do kit à remoção do lençol: como escolher o grampo para cada dente, perfurar, colocar e vedar o dique de borracha, adaptar a técnica a casos difíceis e o que os estudos mostram, com certeza ainda baixa, sobre seus resultados.
Segundo o material didático de Dentística da FORP-USP, colocar um dique de borracha leva de três a cinco minutos, aproximadamente o tempo de latência da anestesia [1]. Ainda assim, mesmo no tratamento de canal, em que o dique é considerado padrão de cuidado, menos da metade dos clínicos gerais de uma grande rede de pesquisa americana disse usá-lo sempre [2]. Isolamento absoluto é a separação de um dente, ou de um grupo de dentes, do restante da boca por um lençol de borracha perfurado, esticado num arco e preso por grampos ou amarrias. O lençol, que é o dique propriamente dito, serve para manter o campo seco, afastar língua, lábios e bochechas, melhorar a visibilidade e funcionar como barreira contra a deglutição ou a aspiração de pequenos objetos [3].
Este guia mostra como fazer o isolamento bem feito e o que se ganha com ele. Uma ressalva vem antes: os ensaios clínicos que compararam dique e rolos de algodão em restaurações são poucos, pequenos e de certeza baixa [3]. Por isso, a defesa do tempo investido se apoia aqui em controle do campo operatório, segurança do paciente e recomendações profissionais, sobretudo em endodontia [4], e não na promessa de restaurações comprovadamente mais duradouras.
Instrumental: o que compõe o kit e para que serve cada item
O kit básico tem cinco itens (lençol, arco porta-dique, perfurador, pinça porta-grampo e grampos) e alguns auxiliares [1][5].
Lençol. É a folha de borracha que forma a barreira. Vem em rolo ou pré-cortado e em quatro espessuras: fino (0,15 mm), médio (0,2 mm), grosso (0,25 mm) e extragrosso (0,3 mm). Quanto mais grosso, mais resistente a rasgos e melhor o afastamento dos tecidos; na prática, os lençóis médio e grosso são os mais usados [1][5]. Cores escuras são preferidas porque contrastam com o dente e refletem menos luz [1].
Arco, perfurador e pinça. O arco porta-dique mantém o lençol esticado. O perfurador tem cinco orifícios de diâmetros diferentes, para que cada furo corresponda ao tamanho do dente que vai atravessá-lo. A pinça porta-grampo abre o grampo e, por meio de um cursor, o mantém aberto enquanto ele é levado ao dente [1].
Grampos. São as peças metálicas que ancoram o lençol no dente. Cada grampo tem um arco flexível, que exerce a pressão de retenção; duas garras, também chamadas mordentes, que abraçam o dente; orifícios onde a pinça se encaixa; e, nos modelos com asa, extensões laterais que seguram o lençol durante a colocação [1].
Auxiliares. Fio dental, para passar o lençol pelos contatos e fazer amarrias; tesoura; lubrificante (vaselina ou sabão); godiva, para estabilizar grampos; caneta, para marcar os furos; sugador; cunhas; e tira de aço [1]. Um material de educação continuada do serviço de saúde escocês (NHS Education for Scotland) acrescenta um gabarito para marcar os furos, elásticos interproximais para estabilizar o lençol entre os dentes e selantes opcionais para falhas de vedamento: agente de calafetação, dique líquido (uma barreira gengival resinosa) ou resina flow [5].
Seleção de grampos: qual usar em cada dente
A escolha depende do dente que vai receber o grampo e da condição dele: forma da coroa, grau de erupção e quanto resta de estrutura [5]. Esse dente nem sempre é o que será tratado; em isolamentos de vários dentes, o grampo vai no dente mais distal, que funciona como âncora [5]. O grampo deve assentar apicalmente à maior convexidade da coroa e precisa ser provado no dente antes da colocação do lençol [1].
A lista a seguir segue a classificação por finalidade usada em material didático de Dentística da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP-USP) [1]. Funciona como ponto de partida, não como regra de catálogo.
Molares — grampos comuns: 200 a 205. Especiais: 26 e 14 [1].
Pré-molares — grampos comuns: 206 a 209 [1].
Anteriores — grampos comuns: 210 e 211. De retração gengival: 212, usado quando é preciso afastar a gengiva, como em lesões cervicais [1].
Posteriores em geral — de retração gengival: 1A. Especiais: W8A e 14A [1].
Dentes parcialmente erupcionados — grampos com garras serrilhadas, que dão melhor apreensão [5].
Com ou sem asa — além do número, os grampos se dividem pela presença de asas, e a escolha acompanha a técnica de colocação preferida, descrita mais adiante [1][5].
Essa numeração não é universal. Fabricantes internacionais usam outros códigos, e as indicações nem sempre coincidem: o W8A, classificado como especial para posteriores no material da FORP-USP [1], é descrito por um fabricante como grampo de garras levemente festonadas para molares [6], e o material escocês de educação continuada cita o 8AD para molares terminais [5]. Use a lista acima como orientação geral e confira, no catálogo da marca que você tem em mãos, a indicação de cada número.
O grampo 212, conhecido como grampo de Ferrier, costuma ser adaptado para lesões cervicais de anteriores: aquecem-se as garras, dobra-se a garra lingual em direção incisal e a vestibular em direção apical, e o grampo é estabilizado com godiva. Também se pode remover um dos arcos laterais para ampliar o acesso ou trabalhar em dois dentes [1].
Com asa ou sem asa?
Um ensaio clínico randomizado (ECR) feito na Índia comparou os dois tipos em 60 adultos com cárie classe I em molar permanente, todos com isolamento de dente único. Os grampos com asa resultaram em menos dor pós-operatória nas primeiras 12 horas, com dor muito leve nos dois grupos, e em menos trauma gengival moderado ou grave (3 casos contra 14). Em contrapartida, a infiltração de fluido sob o lençol foi mais frequente com asa: 16 de 30 casos, contra 7 de 30 [7]. O estudo é pequeno, usou grampos de um só fabricante, tem desfechos subjetivos e inconsistências de relato; não basta para eleger um tipo.
Nos casos de restaurações classe II complexas ilustrados por especialistas reunidos pela Federação Europeia de Odontologia Conservadora (EFCD), um grampo sem asa foi usado no dente mais distal do arco para facilitar o acesso à região proximal [8]. Na prática, os dois tipos são aceitáveis, e a escolha costuma acompanhar a técnica de colocação preferida [5].
Três riscos merecem atenção: um grampo mal adaptado pode se soltar e ser aspirado ou deglutido; grampos ativos podem traumatizar a gengiva e levar a recessão; e, em dentes com bráquetes ortodônticos, o grampo pode atrapalhar o acesso ou danificar o acessório. Nessas situações, amarrias com fio dental podem substituir o grampo, desde que o dente tenha retenção suficiente [9].
Antes de colocar: preparo, número de dentes e perfuração
No roteiro da sequência de preparação para restaurações, o isolamento aparece como um item do checklist. Desdobrado, ele começa com quatro passos de preparo [1].
1. Limpar e polir as coroas dos dentes que serão isolados [1].
2. Passar fio dental em todos os contatos proximais para conferir se o lençol vai passar; o material cita também tira de lixa e disco de granulação fina nessa verificação [1].
3. Lubrificar os tecidos moles [1].
4. Escolher o grampo e prová-lo no dente, conferindo se fica estável abaixo da maior convexidade da coroa [1].
Quantos dentes isolar. Em dentística, o material da FORP-USP recomenda no mínimo três a quatro dentes. Como referência: para trabalhar em anteriores até a face mesial do canino, isola-se de pré-molar a pré-molar; para a face distal do canino, do primeiro molar ao incisivo lateral; em posteriores, de dois dentes distais ao dente trabalhado até o canino do lado oposto. Em endodontia, isola-se apenas o dente tratado [1].
Perfuração. Os furos são marcados com caneta, à mão livre ou com gabarito: na fossa central dos dentes posteriores e na borda incisal dos anteriores [1][5]. O espaçamento entre furos corresponde à distância entre os longos eixos dos dentes, ajustado ao tamanho e ao contorno de cada um, à altura da papila, a espaços e ausências e a dentes malposicionados. Em restaurações junto à margem gengival, o furo do dente tratado é deslocado cerca de 2 mm para vestibular [1]. Furo de tamanho errado, espaçamento incorreto e lençol de espessura inadequada são as causas habituais de rasgos [5].
Sequências de colocação
O material da FORP-USP descreve quatro sequências [1]. Na técnica de Stibbs, o grampo, sem asa, é colocado primeiro e o lençol vem depois. Na de Ingraham, também com grampo sem asa, o grampo é preso ao lençol ainda solto do arco, formando uma espécie de capuz que é levado ao dente. Na de Ryan, lençol e arco são posicionados primeiro e o grampo é colocado por último; é a mais usada em dentes isolados. Na de Parulla, grampo, arco e lençol vão juntos à boca, o que pode reduzir a visibilidade durante o assentamento. A escolha depende do caso e do operador [1].
O material escocês de educação continuada organiza a técnica de outro modo, pelo tipo de grampo e pela extensão do isolamento, como nos roteiros a seguir [5].
Passo a passo com grampo com asa (dente único)
1. Perfurar o lençol no ponto do dente (um gabarito ajuda a marcar) e amarrar um pedaço de fio dental ao grampo, para poder recuperá-lo caso ele escape e proteger a via aérea [5].
2. Encaixar o furo do lençol nas asas do grampo [5][7].
3. Com a pinça, abrir o grampo e levá-lo ao dente junto com o lençol, assentando as garras abaixo da maior convexidade da coroa, na margem gengival ou logo abaixo dela, onde o grampo fica estável [1][5].
4. Soltar a pinça e esticar o lençol para que ele saia de cima das asas e se acomode abaixo delas, em direção cervical [5][7].
5. Prender o lençol no arco e passá-lo pelos contatos com fio dental [5].
6. Inverter a borda do lençol no sulco gengival, testar o vedamento (como descrito abaixo) e, se necessário, ajustar a posição do grampo para melhorá-lo [5].
Com grampo sem asa
Na forma clássica, o grampo, também amarrado com fio dental, é assentado primeiro, e o lençol é esticado sobre ele e depois preso no arco [1][5]. Uma variante, descrita no ECR citado acima, insere as garras no furo, leva o conjunto ao dente e então estica o lençol para baixo das garras [7].
Quadrante e arco completo
Para isolar um quadrante, o grampo com asa vai no dente mais distal e o lençol é passado sobre os demais dentes, com fio dental nos contatos. No arco completo, grampos nos dentes mais distais servem de âncora, os contatos justos recebem fio e o lençol é estabilizado com amarrias ou elásticos interproximais [5].
Inversão e teste de vedamento
Inverter, ou invaginar, o lençol significa dobrar a borda de cada furo para dentro do sulco gengival, de modo que a borracha abrace o colo do dente e bloqueie a passagem de saliva [1]. Faz-se com instrumento de ponta romba, como uma espátula de inserção. Para testar, pingam-se algumas gotas de soro sobre o dente e pergunta-se ao paciente se sente água na boca; se sentir, o lençol deve ser reajustado [5].
Amarrias
Amarria é um laço de fio dental apertado no colo do dente para estabilizar o lençol. Usa-se fio resistente, não encerado, de 20 a 40 cm, com o laço posicionado na margem cervical, abaixo do ponto de contato, e apertado sem força excessiva [5][9]. Há variações: o nó de cirurgião é rápido, mas pode afrouxar logo após a colocação; entre os laços autoligantes, preparados fora da boca, o de laço duplo fica mais firme e estável e pode ser apertado com uma mão [9].
Amarrias funcionam melhor em pré-molares e anteriores, que têm retenção suficiente para o laço; em molares não são recomendadas, porque a tensão do lençol tende a fazê-lo deslizar sobre o nó. Também podem substituir o grampo quando ele limita o acesso, em dentes com bráquetes e na prova de peças indiretas. Para dentes preparados para coroas e pontes e para margens profundas, sobretudo palatinas ou linguais, os mesmos autores propõem uma amarria composta, que também permitiria isolar de segundo pré-molar a segundo pré-molar sem grampos âncora; a proposta não traz dados clínicos comparativos [9]. Outras formas de fixação incluem elásticos interproximais, tiras de borracha e godiva [1][5].
Remoção
Retira-se primeiro o grampo e depois as amarrias. Em seguida, cortam-se com tesoura os septos, isto é, as faixas de borracha entre os furos, e remove-se o lençol. Por fim, irriga-se e massageia-se a região isolada [1].
Isolamento modificado e situações especiais
Isolamento absoluto modificado em anteriores superiores
Autores brasileiros descrevem uma variação para trabalhos de canino a canino superior. Roletes de algodão são colocados de cada lado do freio labial; o lençol recebe oito furos contíguos, feitos com o segundo maior furo do perfurador, e é montado no arco de pré-molar a pré-molar, firme abaixo dos roletes. A fixação é feita com grampos de pré-molar (206 a 209) ou com “stops”, pedaços do próprio lençol encaixados entre os dentes [10].
O resultado é um campo seco com as margens gengivais expostas, e o lençol não toca o material restaurador nas ameias. Associada a fio retrator, a técnica ajuda a controlar o fluido crevicular, o líquido que flui do sulco gengival. É contraindicada em posteriores e para mais de oito dentes. Os autores afirmam eficácia semelhante à do isolamento convencional, mas sem apresentar dados comparativos [10].
Quando o vedamento falha: selantes e dique dividido
Pequenas falhas de vedamento podem ser fechadas com agente de calafetação, dique líquido ou resina flow. Quando não é possível vedar dente a dente, usa-se o dique dividido (split dam): os furos são unidos por uma fenda, o lençol é ancorado por grampos ou elásticos nos dentes distais e invertido, e pode-se aplicar uma massa do tipo putty por palatino para completar o vedamento [5].
Cavidades classe II profundas
Num levantamento com especialistas em restaurações diretas classe II, conduzido por um painel ligado à EFCD, o dique apareceu como recurso comum, mas muitas vezes deixado de lado nos casos mais complexos, em que se recorreu a alternativas como uma matriz circunferencial curva bem adaptada [8]. Os casos ilustrados no mesmo trabalho mostram como manter o isolamento absoluto em margens profundas: amarrias e pré-cunhamento (cunha inserida antes do preparo) para afastar as papilas; matriz posicionada sob o lençol, o que a estabiliza e pode ajudar no vedamento; papilectomia (remoção de parte da papila) para permitir o vedamento; fita de PTFE (politetrafluoretileno) como adjunto onde a cunha não pode ser bem posicionada; e grampo sem asa no dente mais distal para facilitar o acesso. Quando a cavidade foi contaminada durante o procedimento, ela foi jateada, condicionada novamente e recebeu nova aplicação de adesivo [8].
Dentes difíceis de grampear e controle de fluido
O isolamento absoluto é mais difícil em dentes pouco irrompidos, em alguns terceiros molares e em dentes malposicionados [1]. Para dentes parcialmente erupcionados, há grampos de garras serrilhadas [5]; em dentes com bráquetes, ou quando o grampo atrapalha, amarrias podem assumir a retenção, e alguns grampos precisam ser estabilizados com godiva ou resina flow [9]. Em lesões cervicais e proximais, o fio retrator é uma medida adjunta para conter o fluido crevicular; o tempo de permanência deve seguir a indicação do fabricante do fio [1].
Contraindicações e alergia ao látex
O material escocês lista como contraindicações alergia a qualquer material do kit, reflexo de vômito intenso, doença respiratória grave e impossibilidade de posicionar adequadamente o lençol no dente [5]; o material da FORP-USP cita, entre as desvantagens do método, a intolerância de pacientes asmáticos ou alérgicos ao látex da borracha [1]. Para alérgicos ao látex, a diretriz da sociedade australasiana de imunologia clínica e alergia (ASCIA) orienta não usar dique de látex e cita o dique de silicone como alternativa, junto com luvas sem látex (nitrila, neoprene ou vinil), pergunta específica na anamnese e sinalização no prontuário [11]. A orientação é de 2010 e de outro país; vale confirmar com o fornecedor quais lençóis sem látex estão disponíveis.
Variação em endodontia
No tratamento de canal, isola-se apenas o dente tratado [1]. A diretriz S3 da Sociedade Europeia de Endodontia (ESE) recomenda, com base na opinião de especialistas, técnica asséptica meticulosa e campo cirúrgico ideal, incluindo o dique, no tratamento não cirúrgico da doença pulpar e apical, e inclui o dique no protocolo ampliado de terapia pulpar vital para polpas expostas [4]. Nos Estados Unidos, o uso do dique em todo tratamento endodôntico é considerado padrão de cuidado por consenso profissional da Associação Americana de Endodontistas (AAE) [2].
A prática nem sempre acompanha. Entre 1.490 clínicos gerais de uma rede de pesquisa americana que fazem endodontia, 47% disseram usar o dique sempre e 5% relataram não usar nenhum isolamento [2]. No Brasil, 99% de 279 endodontistas responderam usar dique num questionário online [12], e, entre 199 dentistas que fazem endodontia em nove cidades de Sergipe e Bahia, 75,9% disseram usá-lo sempre, 19,6% às vezes e 4,5% nunca, segundo a tabela principal do estudo, que apresenta inconsistências internas de números [13]. São autorrelatos com amostras não representativas. A pesquisa para este artigo não localizou levantamento brasileiro equivalente sobre o uso do dique em restaurações.
Variação em odontopediatria
Em molares decíduos, os dados apontam em direções diferentes. Num ECR brasileiro de não inferioridade com 93 crianças de 4 a 8 anos (174 molares decíduos), restaurações de resina feitas com rolos de algodão e sugador, sem anestesia, foram consideradas não inferiores às feitas com dique, anestesia e grampo: a sobrevida em 2 anos foi de 60,4% com dique e 54,3% com rolos, sem diferença significativa. O atendimento com dique levou mais tempo (30,2 contra 17,9 minutos) e custou cerca de 53% mais; dor e comportamento não diferiram [14]. Já na revisão Cochrane, um estudo de tratamento restaurador atraumático (ART) em molares decíduos favoreceu o dique aos 24 meses, com certeza muito baixa [3]. Nenhum desses resultados deve ser extrapolado para dentes permanentes.
O que a evidência mostra sobre desfechos
A síntese mais completa é a revisão sistemática Cochrane de 2021, que reuniu seis ECRs publicados entre 2010 e 2015, com 1.342 participantes, a maioria crianças; todos os ensaios tinham alto risco de viés [3]. Cinco compararam dique com rolos de algodão, e um comparou o dique com um dispositivo alternativo de isolamento em selantes. Em restaurações de resina de lesões cervicais não cariosas, os resultados sugerem que o dique pode aumentar a sobrevida aos 6 meses (razão de chances, OR, de 2,29; IC95% 1,05–4,99; dois estudos, 192 participantes), com certeza baixa, isto é, com confiança limitada de que o efeito real seja próximo do estimado. Aos 12 e aos 18 meses, com um único estudo de 30 participantes, não houve diferença clara (certeza muito baixa). No ART proximal em molares decíduos, um estudo com 559 crianças favoreceu o dique em 24 meses (razão de hazards para falha, HR, de 0,80; IC95% 0,66–0,97), também com certeza muito baixa [3].
O que a revisão não mostra também importa. Nenhum ensaio relatou eventos adversos nem custos, e nenhum avaliou restaurações indiretas. Os benefícios usados para justificar o dique (controle de umidade, visibilidade, afastamento de tecidos, prevenção de deglutição e aspiração, redução de respingos e aerossóis) aparecem como racional da revisão, não como desfechos medidos. Na comparação com rolos de algodão, o tempo de atendimento mostrou pouca ou nenhuma diferença; num estudo com selantes, o atendimento com dique foi cerca de 12% mais rápido, mas com relato incompleto. Já na comparação com o dispositivo alternativo, o atendimento com o dispositivo foi mais curto, com evidência muito incerta. Quanto à aceitação, um ensaio não encontrou preferência dos pacientes por nenhum dos métodos, e outro relatou menor satisfação com o dique, resultado também muito incerto [3].
Dois ensaios menores, excluídos da Cochrane por randomizarem dentes sem considerar que vários pertenciam ao mesmo paciente [3], apontam para a mesma incerteza. Em 100 restaurações de resina em dentes posteriores feitas por um único operador, rolos de algodão com sugador bem controlados e dique tiveram desempenho sem diferença estatisticamente significativa em 10 anos, mas só 37 restaurações foram avaliadas ao final [15]. Num ECR brasileiro com 140 restaurações em 38 pacientes, descritas pelos autores como classe V, não houve diferença entre os métodos de isolamento em 12 meses, exceto por descoloração marginal num dos subgrupos sem dique aos 6 meses; o dique foi mais desconfortável e associado a recessão gengival de curto prazo [16]. Os especialistas da EFCD citam o estudo de 10 anos ao afirmar que há poucos dados clínicos comparativos robustos de sobrevida a favor do dique [8]. A ausência de diferença em amostras tão pequenas não prova que os métodos sejam equivalentes.
Há também evidência laboratorial. Num estudo in situ, com 30 terceiros molares fixados num dispositivo intraoral usado por um voluntário, a resistência de união ao esmalte de dois sistemas adesivos foi maior quando a adesão foi feita sob dique. Sem dique, ocorreram fraturas adesivas e coesivas em esmalte; sob dique, apenas coesivas [17]. É um desfecho substituto: indica um mecanismo plausível, não que as restaurações durem mais na boca.
Sobre aerossóis, a revisão Cochrane de 2020 sobre intervenções para reduzir a contaminação em procedimentos odontológicos encontrou resultados mistos para o dique, todos de certeza muito baixa e medidos em unidades formadoras de colônia (UFC), não em infecções. Num ensaio de boca dividida (cada participante recebe as duas condições, em lados diferentes da boca) com 10 participantes, o dique pode ter reduzido as UFC a 1 m e a 2 m; num ensaio com 47 estudantes, não houve diferença clara na testa nem na região occipital do operador; e num terceiro, com 21 participantes, dique associado a sugador de alta potência pode ter reduzido a contaminação no tórax do paciente e no refletor em comparação com rolo de algodão e sugador. Nenhum estudo avaliou transmissão de doença [18].
A proteção da via aérea é o benefício mais intuitivo e o mais difícil de medir. Registros de duas seguradoras francesas, cobrindo 24.651 clínicos gerais ao longo de 11 anos, num contexto em que a maioria não usava dique de rotina, somaram 1 instrumento endodôntico aspirado e 57 deglutidos, além de 43 outros itens odontológicos aspirados e 409 deglutidos. A incidência foi de 0,001 aspiração e 0,12 deglutição de instrumento endodôntico por 100.000 tratamentos de canal; os itens aspirados exigiram hospitalização com mais frequência, e não houve mortes [19]. Dados de seguro provavelmente subestimam os eventos, e não há grupo com dique para comparação. Os autores recomendam promover o dique por suas vantagens, e não pelo medo de acidentes [19]. Entre os clínicos americanos citados acima, 96% concordaram que o dique reduz esse risco [2].
Os especialistas da EFCD reconhecem que há poucos dados clínicos comparativos robustos de sobrevida a favor do dique, mas listam o que ele oferece quando bem colocado: afastamento de tecidos moles, estabilização da matriz, proteção da via aérea, limitação de bioaerossóis e melhor adesão ao esmalte. A publicação é um levantamento descritivo enviado a 67 clínicos convidados, dos quais 82% responderam, sem busca de consenso formal: opinião qualificada, não evidência de desfecho [8]. A mesma tensão aparece na endodontia, em que a diretriz da ESE reconhece que fundamentos da boa prática, como o uso do dique, muitas vezes não são investigados em ensaios clínicos, mas sustentam a prática [4].
Na prática: por que vale o tempo e o que não dá para afirmar
Em endodontia, o dique é padrão por consenso profissional da AAE e recomendação de especialistas da ESE. A falta de ensaios comparativos reflete que esse fundamento raramente é testado, e não que ele seja opcional [2][4].
Em restaurações adesivas, a justificativa se apoia em plausibilidade mecânica (campo seco e controlado, maior resistência de união ao esmalte em estudo in situ), em segurança (proteção da via aérea e, com muita incerteza, redução de aerossóis) e em recomendações de especialistas [8][17][18]. Não se apoia em prova de maior longevidade, que tem certeza baixa a muito baixa e vem de poucos ensaios pequenos [3]. A falta de diferença nesses estudos tampouco demonstra que rolos de algodão sejam equivalentes.
Quanto ao tempo, são de três a cinco minutos que podem coincidir com a latência da anestesia [1]. Nas comparações com rolos de algodão incluídas na Cochrane, o tempo de atendimento quase não mudou [3]; no ECR com molares decíduos, porém, o atendimento com dique, que incluía anestesia, levou mais tempo [14]. Entre clínicos americanos, achar o dique fácil de colocar se associou a mais uso (OR 1,65), e considerá-lo inconveniente ou demorado, a menos uso (OR 0,46) [2]. É uma associação em dados de autorrelato, não prova de causa, mas sugere que a percepção de dificuldade pesa na decisão de usá-lo.
Antes de desistir do isolamento absoluto num caso difícil, vale percorrer as adaptações descritas acima: amarrias, grampo sem asa no dente distal, matriz sob o lençol, dique dividido, selantes de vedamento e isolamento modificado em anteriores.
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Referências
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TEMAS DESTE ARTIGO
ABNT NBR 6023
Como citar este artigo
ODONTOLOGISTAS. Isolamento absoluto passo a passo: grampos, técnicas de colocação e o que a evidência mostra. Odontologistas, 16 out. 2026. Disponível em: https://odontologistas.com.br/isolamento-absoluto-passo-a-passo-grampos-tecnicas-evidencia-6e8b8cd45a044773912473fc987a1339/. Acesso em: 16 out. 2026.

