Odontologia Digital
Inteligência artificial na leitura de radiografias panorâmicas: aplicações, desempenho e limites clínicos
A inteligência artificial tem sido investigada para tarefas específicas na análise de radiografias panorâmicas, como detecção de cárie, avaliação de alterações periodontais e identificação da relação entre terceiros molares e canal mandibular. Este artigo discute o que a evidência disponível permite interpretar hoje, seus limites e o papel do cirurgião-dentista.
A radiografia panorâmica oferece uma visão ampla dos arcos dentários e das estruturas maxilomandibulares em uma única aquisição. Essa amplitude convive com sobreposição, distorção e variações de qualidade. A inteligência artificial (IA), sobretudo por meio de modelos de deep learning, vem sendo estudada para localizar achados, classificar alterações e sinalizar regiões para revisão [1,7].
A pergunta clinicamente útil não é se a IA “lê” a panorâmica como uma pessoa, mas qual tarefa delimitada ela executa, em qual população, com quais imagens e com que desempenho. A literatura disponível mostra potencial em problemas específicos, mas não sustenta uma leitura geral autônoma nem a substituição do julgamento clínico [1,2].
Onde a IA é estudada
As aplicações investigadas são estreitas e orientadas por tarefa: detecção de dentes e estruturas anatômicas, identificação de terceiros molares, classificação de cárie em regiões definidas, avaliação de perda óssea em radiografias 2D e localização/classificação da relação entre canal mandibular e terceiro molar [1,3-6]. A saída pode incluir caixas, máscaras, rótulos ou probabilidades; cada formato precisa ser interpretado no contexto clínico e radiográfico.
Um estudo preliminar descreveu uma estrutura de IA para diagnosticar múltiplas doenças dentárias em radiografias panorâmicas [2]. Isso ilustra uma direção multipatologia investigacional, mas não significa que um único modelo tenha desempenho confiável para todos os diagnósticos: tarefas diferentes exigem rótulos, prevalências, limiares e validações próprios.
Na cárie, há estudo que usou 400 recortes de radiografias panorâmicas de terceiros molares para treinar uma rede neural convolucional [4]. O achado é relevante como prova de conceito para uma tarefa anatômica definida. Ele não permite extrapolar desempenho para a panorâmica inteira, para todas as superfícies ou para todos os estágios de lesão; a indicação de outra modalidade deve seguir a pergunta clínica e as normas do serviço.
Na cirurgia de terceiros molares, modelos foram desenvolvidos para detectar o terceiro molar inferior, localizar o canal mandibular e classificar sua relação anatômica em panorâmicas [5]. Essa tarefa pode apoiar triagem e comunicação de risco, mas a proximidade aparente em duas dimensões não deve ser convertida automaticamente em conclusão tridimensional ou indicação operatória.
Para periodonto, revisões e estudos em radiografias odontológicas 2D investigam a detecção de perda óssea e periodontite [6]. Essa é evidência contextual, não específica apenas de panorâmicas. Na prática, qualquer sinal deve ser confrontado com qualidade da imagem, região examinada, sondagem, sinais clínicos e histórico do paciente.
Como interpretar o desempenho diagnóstico
Sensibilidade responde a quantos casos foram sinalizados; especificidade, a quantos não casos foram corretamente excluídos. Acurácia pode ser enganosa quando a condição é incomum. AUC resume a discriminação em vários limiares, enquanto os valores preditivos dependem também da prevalência. Por isso, um número publicado não deve ser transferido diretamente para o consultório [1,6,7].
Antes de adotar uma ferramenta, verifique se houve teste externo, se a população se aproxima dos seus pacientes, se imagens de equipamentos diferentes foram incluídas e como os rótulos de referência foram definidos. Também é importante saber se a avaliação foi feita por paciente, evitando que imagens do mesmo indivíduo apareçam no treino e no teste.
A revisão de aplicações em radiografias panorâmicas identificou potencial, mas também uma base de estudos heterogênea [1]. A revisão mais ampla em radiologia dentomaxilofacial investigou aplicações e desempenho em tarefas diversas [7]. Nesta execução, foram consultados registros e resumos disponíveis no PubMed; os textos integrais não foram verificados. Não foram extraídos números de sensibilidade, especificidade, AUC ou acurácia para comparar os estudos. Desempenho de desenvolvimento, portanto, não equivale a benefício clínico demonstrado.
Benefícios possíveis no fluxo de trabalho
Quando validada para a tarefa e o serviço, a IA pode funcionar como segunda leitura, priorizar exames para revisão, padronizar medições repetitivas e oferecer uma marcação visual para conferência. O possível ganho é consistência e atenção dirigida, não uma autorização para reduzir a análise sem compreender a saída. O benefício precisa ser medido no fluxo real, incluindo achados perdidos, falsos positivos, encaminhamentos e impacto na decisão.
Uma marcação também pode ajudar a discutir uma região com o paciente ou com a equipe. Interfaces com probabilidade, cores ou caixas, porém, podem induzir excesso de confiança. A visualização é uma explicação operacional do modelo, não prova independente de que exista uma lesão.
Limitações, riscos e responsabilidade profissional
O desempenho pode variar quando a imagem, o equipamento, o processamento ou a população diferem do conjunto usado no desenvolvimento. Qualquer ferramenta deve informar seu escopo e seus critérios de qualidade. Resultado negativo não exclui doença quando a imagem é inadequada ou quando o caso está fora da população e da tarefa validadas.
O cirurgião-dentista continua responsável por avaliar a indicação e a qualidade do exame, interpretar a imagem com história e exame clínico, decidir sobre exames complementares e comunicar diagnóstico e plano ao paciente. A IA pode ser apoio, não justificativa única para diagnóstico, tratamento ou não encaminhamento. Em relações anatômicas de maior risco, a necessidade de imagem tridimensional deve ser decidida pela pergunta clínica, não por uma marcação automática [5].
Como requisitos de adoção responsável, o serviço deve definir quem revisa alertas, como registra discordâncias e quais critérios suspendem o uso quando a qualidade cai. Privacidade, governança de dados, versão do modelo e monitoramento são aspectos prudenciais de implementação que exigem políticas institucionais próprias; não foram avaliados empiricamente pelos estudos citados.
Um roteiro prático para adoção
1. Defina a pergunta clínica e a tarefa que a ferramenta pretende apoiar. 2. Confirme modalidade, qualidade mínima e indicações de uso. 3. Leia a validação externa e identifique população, equipamento, referência e métricas. 4. Faça piloto com dupla conferência humana. 5. Compare resultados antes e depois, incluindo falsos positivos e negativos. 6. Documente a decisão final e reavalie o desempenho quando o fluxo ou o modelo mudar.
Perspectivas futuras
Uma perspectiva plausível é a evolução de modelos que apenas classificam imagens para sistemas capazes de combinar imagem e contexto clínico sob supervisão profissional. Essa é uma direção de desenvolvimento, não um benefício demonstrado pelas fontes consultadas. Para ser útil, exigirá bases representativas, testes externos e prospectivos, padrões de relato, explicitação de incerteza e estudos de desfechos do paciente, além de métricas de laboratório [1,6].
A perspectiva mais realista é a de colaboração: a IA executa tarefas delimitadas, enquanto o cirurgião-dentista define a pergunta, reconhece exceções, integra evidências e assume a decisão. A tecnologia amadurece quando aumenta a qualidade do cuidado sem diminuir a responsabilidade profissional.
Conclusão
A IA tem aplicações promissoras na leitura de radiografias panorâmicas, especialmente em detecção e classificação de tarefas específicas. A evidência é heterogênea e não autoriza apresentar a ferramenta como leitor autônomo. Para o consultório, a adoção responsável depende de escopo claro, validação externa e local, revisão humana, documentação e integração com exame clínico e outras imagens quando indicadas.
Referências
Turosz N, Chęcińska K, Chęciński M, Brzozowska A, Nowak Z, Sikora M. Applications of artificial intelligence in the analysis of dental panoramic radiographs: an overview of systematic reviews. Dentomaxillofac Radiol, 2023.
Consultar referência 1 ↗Zhu J, Chen Z, Zhao J, Yu Y, Li X, Shi K, Zhang F, Yu F, Shi K, Sun Z, Lin N, Zheng Y. Artificial intelligence in the diagnosis of dental diseases on panoramic radiographs: a preliminary study. BMC Oral Health, 2023.
DOI: 10.1186/s12903-023-03027-6
Consultar referência 2 ↗Zadrożny Ł, Regulski P, Brus-Sawczuk K, Czajkowska M, Parkanyi L, Ganz S, Mijiritsky E. Artificial Intelligence Application in Assessment of Panoramic Radiographs. Diagnostics (Basel), 2022.
DOI: 10.3390/diagnostics12010224
Consultar referência 3 ↗Vinayahalingam S, Kempers S, Limon L, Deibel D, Maal T, Hanisch M, Bergé S, Xi T. Classification of caries in third molars on panoramic radiographs using deep learning. Scientific Reports, 2021.
DOI: 10.1038/s41598-021-92121-2
Consultar referência 4 ↗Soltani P, Sohrabniya F, Mohammad-Rahimi H, Mehdizadeh M, Mohammadreza Mousavi S, Moaddabi A, Mohammadmahdi Mousavi S, Spagnuolo G, Yavari A, Schwendicke F. A two-stage deep-learning model for determination of the contact of mandibular third molars with the mandibular canal on panoramic radiographs. BMC Oral Health, 2024.
DOI: 10.1186/s12903-024-04850-1
Consultar referência 5 ↗Khubrani YH, Thomas D, Slator PJ, White RD, Farnell DJJ. Detection of periodontal bone loss and periodontitis from 2D dental radiographs via machine learning and deep learning: systematic review employing APPRAISE-AI and meta-analysis. Dentomaxillofac Radiol, 2025.
DOI: 10.1093/dmfr/twae070
Consultar referência 6 ↗Hung K, Montalvao C, Tanaka R, Kawai T, Bornstein MM. The use and performance of artificial intelligence applications in dental and maxillofacial radiology: A systematic review. Dentomaxillofac Radiol, 2020.
Consultar referência 7 ↗
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