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Anatomia dental externa: como identificar incisivos, caninos, pré-molares e molares permanentes

Como reconhecer cada grupo de dentes permanentes pela coroa e pela raiz, separar superior de inferior e direito de esquerdo e ler a notação FDI, com tabelas comparativas, checklist de identificação e o que a tomografia mostra sobre a variação das raízes.

Diante de um dente isolado na bancada de anatomia, a pergunta é sempre a mesma: que dente é este, de que arcada e de que lado? A resposta vem da anatomia externa, isto é, do formato da coroa, do número e do arranjo das cúspides e do número e da forma das raízes, e termina num código de dois dígitos, a notação FDI. Este guia percorre com esse objetivo os quatro grupos da dentição permanente: incisivos, caninos, pré-molares e molares [1][2].

As descrições a seguir correspondem ao padrão mais comum, a forma “clássica” ou didática de cada dente. As descrições vêm de duas fontes de ensino: um capítulo aberto de livro (IntechOpen) [1], que resume a morfologia com base no Wheeler, e uma apostila universitária brasileira (UNIESP) [2], chamada aqui de “apostila”. Nenhuma é o livro-texto original, e as duas descrevem as formas de modo qualitativo, com pequenas divergências que o texto aponta. Elas não valem para todos os indivíduos: estudos que contaram raízes em exames de tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) de centenas de pacientes encontraram frequências diferentes entre amostras de países distintos [1][3][4][5]. Câmara pulpar e sistemas de canais são tema do artigo “Anatomia Interna do Dente”, aqui do site, e aparecem neste guia só quando ajudam a identificar o dente; o primeiro molar aparece resumido, porque tem artigo próprio, “O Primeiro Molar Permanente”.

Grupos, faces e nomes: o vocabulário da identificação

A dentição permanente tem 32 dentes, 16 por arcada e 8 de cada lado. Em cada arcada há 4 incisivos, 2 caninos, 4 pré-molares e 6 molares, contando os terceiros molares, que muitas pessoas não têm [1][2]. Os pré-molares, também chamados bicúspides, só existem na dentição permanente e substituem os molares decíduos. Os molares permanentes não substituem nenhum dente: irrompem atrás do segundo molar decíduo, o primeiro deles por volta dos 6 anos [1][2].

Nomear um dente por extenso exige cinco informações: classe (incisivo, canino, pré-molar ou molar), tipo (central, lateral, primeiro, segundo ou terceiro), arcada (superior ou inferior), posição (direito ou esquerdo, sempre do paciente) e conjunto (permanente ou decíduo) [2]. “Primeiro pré-molar superior direito permanente” é um exemplo de nome completo, que corresponde a um único dente.

Cada coroa é descrita por faces. A vestibular fica voltada para os lábios e a bochecha; o capítulo de livro-texto consultado a chama de labial nos dentes anteriores e de bucal nos posteriores. A face oposta é a palatina nos dentes superiores e a lingual nos inferiores. As faces proximais são a mesial, mais próxima da linha média, e a distal. Os dentes anteriores (incisivos e caninos) têm quatro faces axiais e terminam numa borda incisal, a parte cortante; os posteriores (pré-molares e molares) têm quatro faces axiais e uma face oclusal, a parte que tritura [1][2].

Algumas estruturas funcionam como pistas. O cíngulo é o lóbulo lingual dos anteriores, uma saliência no terço cervical da face lingual ou palatina de incisivos e caninos. A cúspide é uma elevação piramidal que divide a face oclusal de pré-molares e molares e forma a ponta do canino [1][2]. As cristas marginais, mesial e distal, delimitam a face oclusal dos posteriores; a crista oblíqua é exclusiva dos molares superiores; e os mamelões são saliências arredondadas da borda incisal dos dentes recém-irrompidos, que se atenuam com a idade [1][2].

Notação FDI: quadrante e posição

O sistema de dois dígitos foi proposto pela FDI, adotado pela Organização Mundial da Saúde e aceito pela IADR [1]. O primeiro dígito indica o quadrante: 1 é o superior direito, 2 o superior esquerdo, 3 o inferior esquerdo e 4 o inferior direito do paciente. O segundo indica a posição contada a partir da linha média: 1 incisivo central, 2 incisivo lateral, 3 canino, 4 primeiro pré-molar, 5 segundo pré-molar, 6 primeiro molar, 7 segundo molar e 8 terceiro molar [1][2]. Alguns textos grafam com ponto (1.1, 4.8), com o mesmo significado [1].

Exemplos de leitura da notação FDI na dentição permanente
CódigoQuadrantePosiçãoDente
111: superior direito1: incisivo centralIncisivo central superior direito [1][2]
232: superior esquerdo3: caninoCanino superior esquerdo [1][2]
363: inferior esquerdo6: primeiro molarPrimeiro molar inferior esquerdo [1][2]
484: inferior direito8: terceiro molarTerceiro molar inferior direito [1][2]

Dois cuidados evitam erros de leitura. Nos esquemas de arcada de material didático, o lado direito do paciente aparece à esquerda da página: a sequência superior vai de 18 a 11 e de 21 a 28, e a inferior de 48 a 41 e de 31 a 38, com a linha média separando os quadrantes [2]. E os dentes decíduos usam os quadrantes 5, 6, 7 e 8, com posições de 1 a 5, por isso é obrigatório dizer quando o dente é decíduo; eles ficam fora deste guia [1][2].

Tabela comparativa: os grupos dentários lado a lado

A tabela resume o padrão de cada grupo em cada arcada. Na última coluna, os percentuais vêm de estudos com CBCT e valem para as amostras estudadas, não para qualquer população [3][4][5].

Padrão de coroa e raiz por grupo dentário permanente e variação registrada
Grupo (FDI)CoroaBorda ou cúspidesRaízes: padrãoVariação frequente
Incisivos superiores (11, 12, 21, 22)Central largo, com vestibular retangular; lateral menor, com cíngulo proeminente [1][2]Borda incisal cortante; três mamelões no central recém-irrompido [1][2]Uma raiz [1]O lateral é o dente que mais varia na boca [1]; todos com uma raiz na amostra malaia [3]
Incisivos inferiores (31, 32, 41, 42)Central é o menor e mais simétrico anterior; lateral com ângulo mesioincisal reto [1][2]Borda incisal; cíngulo liso, sem sulcos [1][2]Uma raiz, as menores e mais curtas da boca [1]O lateral pode ter um segundo canal [1]; todos com uma raiz na amostra malaia [3]
Caninos superiores (13, 23)Pentagonal, em lança, tão longa quanto a do incisivo central [1][2]Uma cúspide pontiaguda, de vertente mesial mais curta; cíngulo grande [1][2]Uma raiz, a mais longa da boca, que forma a eminência canina [1][2]Todos com uma raiz na amostra malaia [3]
Caninos inferiores (33, 43)Pentagonal, mais longa e esbelta que a do superior [1][2]Cúspide mais fina; cíngulo e cristas marginais menos definidos [1][2]Uma raiz [1]Raiz bifurcada “não é rara” segundo o capítulo [1]; 1,2% com duas raízes na amostra malaia [3]
Pré-molares superiores (14, 15, 24, 25)1º com oclusal hexagonal; 2º com oclusal oval, mais arredondado [1][2]Duas cúspides, vestibular e palatina [1][2]1º com duas raízes (vestibular e palatina); 2º com uma [1][2]1º com duas raízes em 31,9% a 75,1%, conforme a amostra; 2º com duas em 8,1% a 17,8% [3][4][5]
Pré-molares inferiores (34, 35, 44, 45)1º lembra um canino pequeno; 2º quadrado (três cúspides) ou arredondado (duas) [1][2]Cúspide vestibular dominante; lingual pequena e sem função no 1º [1][2]Uma raiz [1][2]Uma raiz em 98,3% dos 1os e 100% dos 2os na amostra malaia [3]
Molares superiores (16, 17, 18, 26, 27, 28)Oclusal romboide, com crista oblíqua [1][2]Quatro cúspides principais no 1º e no 2º, com tubérculo de Carabelli no 1º; três funcionais no 3º [1][2]Três raízes: duas vestibulares e uma palatina [1][2]2º com três raízes em 88,1% na amostra malaia [3]; 3º com 1 a 5 raízes, muitas vezes fundidas [1][2]
Molares inferiores (36, 37, 38, 46, 47, 48)Oclusal hexagonal no 1º e frequentemente retangular no 2º, convergente para lingual [1][2]Cinco cúspides no 1º e quatro no 2º; o grupo varia de três a cinco [1]Duas raízes: mesial e distal [1][2]1º com raiz distolingual extra em 21,4%; 2º com canal em C em 48,7% na amostra malaia [3]

Incisivos e caninos: o que distingue os dentes anteriores

Incisivos superiores

O incisivo central superior (11 e 21) tem forma de cunha, própria para cortar alimentos. A face vestibular é larga e retangular e, no dente recém-irrompido, a borda incisal mostra três mamelões separados por dois sulcos de desenvolvimento, que se atenuam com o uso. O ângulo mesioincisal é mais agudo que o distoincisal, e o contorno mesial é menos convexo que o distal, o que já dá uma pista de lado [1][2].

O incisivo lateral superior (12 e 22) se parece com o central, mas é menor: a coroa é 2 a 3 mm mais curta, enquanto a raiz tem comprimento semelhante ou maior e o ápice se curva para distal. Os ângulos incisais são mais arredondados, o contorno distal é mais curto e arredondado que o mesial e o cíngulo é proeminente [1][2]. Segundo o capítulo de livro-texto consultado, é o dente que mais varia na boca [1]. A apostila registra ainda um forame cego na região cervical da face palatina [2].

Incisivos inferiores

O incisivo central inferior (31 e 41) é descrito como o menor e mais simétrico dos dentes anteriores: a coroa tem cerca de metade da dimensão mesiodistal da do central superior, as faces são lisas, os contornos mesial e distal são paralelos e o cíngulo é liso, sem sulcos de desenvolvimento. Ele oclui com apenas um antagonista, o incisivo central superior [1][2].

No incisivo lateral inferior (32 e 42), o ângulo mesioincisal é reto, de 90 graus, traço que o capítulo aponta como característico desse dente [1]. A apostila acrescenta faces proximais desiguais, com a mesial menor e menos inclinada e a distal maior e mais inclinada, e o capítulo descreve a linha cervical cerca de 1 mm mais incisal na mesial [1][2]. O ângulo reto e a assimetria das proximais ajudam a reconhecer o lateral e o seu lado [1][2]. Quanto ao tamanho, a apostila é inconsistente ao comparar central e lateral inferiores; o capítulo descreve o central inferior como o menor dos dentes anteriores, sem dar a diferença para o lateral [1][2]. Os incisivos inferiores têm as menores e mais curtas raízes da boca, e o lateral pode ter um segundo canal [1].

Caninos

O canino superior (13 e 23) tem coroa tão longa quanto a do incisivo central, em forma de lança ou pentágono, com uma única cúspide pontiaguda cuja vertente mesial é mais curta que a distal. A face vestibular tem três lóbulos, dos quais o médio é o mais desenvolvido, e o cíngulo é grande a ponto de lembrar uma pequena cúspide [1][2]. A raiz é única e a mais longa de todos os dentes, e forma a eminência canina, na face anterior da maxila [1][2]; a apostila a descreve também como a única de forma cônica e a mais forte [2].

O canino inferior (33 e 43) tem coroa vestibular também pentagonal, mas parece mais longa e esbelta, porque é menos de 1 mm mais estreita no sentido mesiodistal e 0,5 a 1 mm mais longa que a do superior. Cíngulo e cristas marginais são menos definidos, e a cúspide é mais fina no sentido vestibulolingual [1][2]. A raiz costuma ser única, mas as fontes divergem sobre a frequência da bifurcação: o capítulo diz que a raiz bifurcada “não é rara” [1], enquanto numa amostra de CBCT da Malásia só 1,2% dos 411 caninos inferiores tinham duas raízes, e todos os incisivos e caninos superiores tinham uma [3]. Não há base para fixar uma frequência única; basta saber que a variação existe.

Pré-molares: primeiro × segundo, superior × inferior

Os pré-molares são oito, dois por hemiarco, e têm morfologia de transição entre o canino e o molar. Em geral apresentam duas cúspides, uma vestibular e uma lingual ou palatina, e irrompem entre os 10 e os 12 anos [1][2].

Pré-molares superiores

No primeiro pré-molar superior (14 e 24), a cúspide vestibular é longa e pontiaguda, parecida com a do canino, e maior que a palatina [1][2]. Na vista oclusal, a coroa é hexagonal, com a dimensão vestibulolingual maior que a mesiodistal e duas fossetas, mesial e distal [1][2]. A face vestibular é descrita como pentagonal pela apostila e trapezoidal pelo capítulo [1][2].

O segundo pré-molar superior (15 e 25) é menos angular: tem ângulos arredondados, cúspides de mesma altura e menos pontiagudas e oclusal oval, com bordas mesial e distal que convergem pouco para lingual, o que lhe dá aspecto retangular; nenhum sulco atravessa a crista marginal mesial [1][2]. Na comparação direta, os traços mais úteis são o contorno oclusal (hexagonal no primeiro, oval no segundo) e o número de raízes: em geral duas no primeiro, uma vestibular e uma palatina, e uma no segundo [1][2].

A posição do sulco central, por outro lado, é um critério pouco confiável. No primeiro pré-molar, a apostila o descreve deslocado para palatina e cita um sulco que rompe a crista marginal mesial, enquanto o capítulo o coloca no centro da oclusal, sem sulcos suplementares; no segundo, a apostila fala em sulco central curto e irregular, com vários sulcos secundários, e o capítulo, em sulco mais lingual [1][2]. Com essa divergência, vale mais apoiar a identificação no contorno oclusal, na simetria das cúspides e nas raízes.

O número de raízes do primeiro pré-molar superior é onde a regra didática mais falha. Em três estudos transversais com CBCT, a proporção de primeiros pré-molares superiores com duas raízes foi de 31,9% numa amostra da Malásia (208 exames, 92,3% de pacientes de etnia chinesa; 304 dentes), 70,8% numa amostra turca (404 pacientes; 511 dentes) e 75,1% numa amostra saudita (707 exames; 334 dentes), e entre 0,3% e 1,2% tinham três raízes [3][4][5]. O segundo pré-molar superior tinha uma raiz em 91,9%, 82,1% e 85,2% dessas amostras, e duas em 8,1%, 17,8% e 14,5%, respectivamente [3][4][5]. As diferenças provavelmente refletem população, método e critério para contar uma raiz, e os números não se reconciliam numa frequência única. O capítulo lembra ainda que, quando o primeiro pré-molar superior tem uma só raiz, costuma ter dois canais [1], assunto de “Anatomia Interna do Dente”.

Pré-molares inferiores

O primeiro pré-molar inferior (34 e 44) lembra um canino pequeno: a cúspide vestibular é longa e aguda e é a única que oclui, enquanto a lingual é pequena, semelhante a um cíngulo e sem função. A vertente mesial da cúspide vestibular é mais curta que a distal, a oclusal é ovoide e a raiz é única, com duas muito raramente [1][2]. A apostila descreve ainda uma ponte de esmalte transversal, deslocada para mesial, que forma duas fossas, e uma raiz achatada, sulcada e levemente desviada para distal [2].

O segundo pré-molar inferior (35 e 45) tem duas formas. A de três cúspides, provavelmente a mais frequente, tem oclusal quadrada e cúspides em ordem decrescente de tamanho: vestibular, mesiolingual e distolingual. A de duas cúspides é arredondada, com uma cúspide lingual oposta à vestibular. Em ambas, a cúspide vestibular é mais curta que a do primeiro pré-molar, e a crista marginal distal fica num nível mais baixo que a mesial [1][2]. A apostila descreve o sulco principal em Y na forma tricuspidada e curvo na bicuspidada [2].

Os pré-molares inferiores quase sempre têm uma raiz. Na amostra malaia, isso valeu para 98,3% dos primeiros (359 dentes) e 100% dos segundos (399 dentes), e o capítulo descreve duas raízes como raras em ambos [1][3]. No estudo turco, a maioria dos pré-molares inferiores também tinha raiz única [4].

Pré-molares permanentes: traços para diferenciar primeiro e segundo, superior e inferior
Dente (FDI)CúspidesContorno oclusalRaízes: padrãoRaízes em CBCT
1º superior (14, 24)Vestibular longa e pontiaguda, maior que a palatina [1][2]Hexagonal [1]Duas: vestibular e palatina [1][2]Duas raízes em 31,9% (Malásia), 70,8% (Turquia) e 75,1% (Arábia Saudita) [3][4][5]
2º superior (15, 25)Duas de mesma altura, menos pontiagudas [1][2]Oval, de aspecto retangular [1][2]Uma [1][2]Uma raiz em 82,1% a 91,9%, conforme a amostra [3][4][5]
1º inferior (34, 44)Vestibular longa e dominante; lingual pequena e sem função [1][2]Ovoide [1][2]Uma; duas muito raramente [1][2]Uma raiz em 98,3% (Malásia) [3]
2º inferior (35, 45)Três (vestibular, mesiolingual e distolingual) ou duas [1][2]Quadrado com três cúspides; arredondado com duas [1]Uma [1]Uma raiz em 100% (Malásia) [3]

Molares: superiores, inferiores e as diferenças entre 1º, 2º e 3º

No padrão, os molares superiores têm três raízes, duas vestibulares e uma palatina, e os inferiores têm duas, mesial e distal; as raízes dos molares são longas e curvas, e divergentes nos superiores [1][2]. As cúspides recebem o nome da posição: mesiovestibular, distovestibular, mesiolingual e distolingual são as quatro principais, e o primeiro molar inferior soma uma quinta, a distal [1]. A apostila usa siglas (como CML, para cúspide mesiolingual) e rótulos para o primeiro molar inferior que não coincidem um a um com os do capítulo; por isso, aqui as cúspides vão sempre por extenso [1][2].

Molares superiores

O primeiro molar superior (16 e 26) é o maior e mais forte dente da arcada superior. A coroa é romboide na vista oclusal, mais larga na mesial e na lingual, e uma crista oblíqua liga as cúspides distovestibular e mesiolingual. Tem quatro cúspides principais e, sobre a mesiolingual, o tubérculo de Carabelli, que varia de uma cúspide bem formada a apenas sulcos e fossetas. As três raízes são bem separadas: a palatina é a maior, a mesiovestibular é um pouco mais curta e larga e a distovestibular é a menor [1][2]. As fontes concordam que a cúspide mesiolingual é a maior e a mesiovestibular a segunda, mas divergem na ordem das duas distais [1][2]. Na amostra malaia, 99,7% dos 344 primeiros molares superiores tinham três raízes [3]. O detalhamento deste dente está no artigo “O Primeiro Molar Permanente”.

O segundo molar superior (17 e 27) complementa o primeiro. As cúspides distovestibular e distolingual são menores, não há quinta cúspide evidente, e a oclusal é romboide, com ângulos agudos menores e obtusos maiores e mais sulcos e fossetas acessórios. As raízes são tão longas quanto as do primeiro, ou mais, e na maioria são três [1][2]. A apostila descreve formas com quatro e com três cúspides e dá a ordem mesiolingual > mesiovestibular > distovestibular > distolingual, sem confirmação no capítulo [2]. Na amostra malaia, 88,1% dos 354 segundos molares superiores tinham três raízes, 9,0% tinham duas e 2,8% uma [3].

Os terceiros molares são, entre todos os dentes, os que mais variam no desenvolvimento. O superior (18 e 28) costuma ser menor e de contorno irregular, com oclusal em forma de coração e três cúspides funcionais, duas vestibulares e uma lingual. Pode ter de 1 a 5 raízes, na maioria 1 a 3 e com frequência fundidas, e oclui apenas com o terceiro molar inferior [1][2].

Molares inferiores

O primeiro molar inferior (36 e 46) é o maior dente da arcada inferior. Tem cinco cúspides bem desenvolvidas (mesiovestibular, distovestibular, mesiolingual, distolingual e distal), de modo que, na vista vestibular, aparecem três cúspides separadas por dois sulcos, o mesiovestibular e o distovestibular. A oclusal é hexagonal, a coroa converge para lingual e há duas raízes, mesial e distal [1][2]. Duas afirmações comuns pedem cautela. Chamar o dente de “único com cinco cúspides” só funciona para separá-lo do segundo molar inferior, porque os molares inferiores variam de três a cinco cúspides e o terceiro muitas vezes tem cinco ou mais [1][2]. E as fontes discordam sobre qual raiz é mais longa: o capítulo indica a mesial, e a apostila diz que a mesial é mais curta e reta [1][2]. O artigo “O Primeiro Molar Permanente”, do site, trata esse dente em detalhe.

Na amostra malaia, 78,4% dos 370 primeiros molares inferiores tinham duas raízes e 21,6% tinham três, quase sempre por uma raiz distolingual extra, a radix entomolaris (21,4%) [3].

O segundo molar inferior (37 e 47) tem quatro cúspides bem desenvolvidas, duas vestibulares e duas linguais, sem cúspide distal nem sulco distovestibular: um único sulco vestibular separa as cúspides vestibulares. A oclusal é frequentemente retangular, e a coroa é menor que a do primeiro molar em uma fração de milímetro. As duas raízes são mais retas e menos divergentes que as do primeiro [1][2]. A apostila descreve o sulco principal em cruz e a ordem mesiovestibular > mesiolingual > distovestibular > distolingual, sem confirmação no capítulo [2].

Neste dente, “sempre duas raízes” não vale. Na amostra malaia, 51,1% dos 376 segundos molares inferiores tinham duas raízes e 48,7% tinham canal em C, configuração para a qual o estudo não informou a contagem de raízes [3]. Essa frequência alta veio de uma amostra asiática e não deve ser generalizada [3]; a anatomia dos canais é tema de “Anatomia Interna do Dente”.

O terceiro molar inferior (38 e 48) varia muito em forma, tamanho e posição. Quando bem desenvolvido, lembra o segundo molar inferior, mas muitas vezes tem cinco ou mais cúspides, coroa maior e raízes pouco desenvolvidas, em geral duas, separadas por bifurcação definida ou fundidas; a apostila registra alta frequência de dilaceração e fusão radicular [1][2].

Molares permanentes: superior × inferior e 1º × 2º × 3º
Dente (FDI)Coroa na vista oclusalCúspidesRaízes: padrãoVariação registrada
1º superior (16, 26)Romboide, com crista oblíqua [1][2]Quatro principais e tubérculo de Carabelli na mesiolingual [1][2]Três, bem separadas; a palatina é a maior [1][2]Três raízes em 99,7% (Malásia) [3]
2º superior (17, 27)Romboide, com mais sulcos e fossetas acessórios [1][2]Quatro, com as distais menores; sem quinta cúspide evidente [1][2]Três, na maioria [1][2]Três raízes em 88,1%, duas em 9,0% e uma em 2,8% (Malásia) [3]
3º superior (18, 28)Em forma de coração, de contorno irregular [1][2]Três funcionais [1][2]De 1 a 5, em geral 1 a 3, muitas vezes fundidas [1][2]Os terceiros molares são os dentes de maior variação [1][2]
1º inferior (36, 46)Hexagonal, convergente para lingual [1][2]Cinco: mesiovestibular, distovestibular, mesiolingual, distolingual e distal [1]Duas: mesial e distal [1][2]Três raízes em 21,6%, quase sempre radix entomolaris (Malásia) [3]
2º inferior (37, 47)Frequentemente retangular [1][2]Quatro; um só sulco vestibular [1][2]Duas, mais retas e menos divergentes [1][2]Duas raízes em 51,1% e canal em C em 48,7% (Malásia) [3]
3º inferior (38, 48)Coroa maior; lembra o 2º quando bem formado [1][2]Muitas vezes cinco ou mais [1]Em geral duas, separadas ou fundidas [1][2]Dilaceração e fusão radicular frequentes, segundo a apostila [2]

Superior ou inferior? Direito ou esquerdo?

Nos anteriores, a arcada se decide comparando pares. O incisivo central superior é largo, e o inferior é o menor e mais simétrico, com coroa de cerca de metade da dimensão mesiodistal; o lateral superior tem cíngulo proeminente e fossa lingual mais côncava, enquanto o inferior tem cíngulo liso, sem sulcos; e o canino inferior parece mais longo e esbelto que o superior [1][2]. A apostila acrescenta que nos inferiores a fossa lingual é rasa e não há forame cego [2].

Nos posteriores, a pista vem da combinação de contorno oclusal e raízes. O primeiro pré-molar superior tem oclusal hexagonal e duas raízes com frequência, e o primeiro inferior tem cúspide vestibular dominante e uma raiz; os molares superiores têm coroa romboide, crista oblíqua e três raízes, e os inferiores, coroa que converge para lingual e duas raízes [1][2][3]. Essa combinação é uma inferência a partir das descrições, não um critério validado, e falha nos casos de variação já citados, como um primeiro pré-molar superior com uma raiz ou um terceiro molar atípico [1][2][3].

Para o lado, o trabalho é localizar a face mesial, que fica voltada para a linha média [1][2]. As descrições oferecem estes traços:

  • Incisivo central superior: ângulo mesioincisal mais agudo e distoincisal arredondado [1][2].
  • Incisivo lateral superior: contorno distal mais curto e arredondado e ápice da raiz curvado para distal [1][2].
  • Incisivo lateral inferior: ângulo mesioincisal reto [1][2].
  • Caninos: vertente mesial da cúspide mais curta que a distal [1][2].
  • Primeiro pré-molar inferior: vertente mesial da cúspide vestibular mais curta que a distal [1][2].
  • Segundo pré-molar inferior: crista marginal distal em nível mais baixo que a mesial [1][2].
  • Primeiro molar superior: coroa mais larga na mesial que na distal [1][2].
  • Molares inferiores: faces mesiais mais altas que as distais, segundo a apostila [2].

Esses traços descrevem um modelo. Cada um tem exceções, e as fontes os apresentam de forma qualitativa, sem validar um critério único nem informar a taxa de acerto de nenhum deles; por isso, a decisão sobre o lado deve combinar vários traços, como ângulos incisais, curvatura da raiz, altura das proximais e cristas marginais [1][2].

Checklist de identificação, passo a passo

  1. Anterior ou posterior: borda incisal e cíngulo indicam incisivo ou canino; face oclusal com cúspides indica pré-molar ou molar [1][2].
  2. Grupo: borda incisal cortante, incisivo; uma cúspide pontiaguda e raiz muito longa, canino; em geral duas cúspides e uma ou duas raízes, pré-molar; de três a cinco cúspides e duas ou três raízes, molar [1][2].
  3. Arcada: nos anteriores, compare largura, simetria e cíngulo; nos posteriores, contorno oclusal e raízes, como coroa romboide com três raízes no molar superior e coroa convergente para lingual com duas raízes no molar inferior [1][2].
  4. Tipo: central × lateral pela largura e pelos ângulos incisais; 1º × 2º pré-molar superior pelo contorno oclusal (hexagonal × oval) e pelas raízes; 1º × 2º pré-molar inferior pela cúspide lingual, pequena e sem função no 1º; 1º × 2º molar pelo tubérculo de Carabelli no superior e pela cúspide distal no inferior [1][2].
  5. Lado: localize a mesial com mais de um dos traços listados na seção anterior, lembrando que ela fica voltada para a linha média [1][2].
  6. Código FDI: escreva o quadrante (1 superior direito, 2 superior esquerdo, 3 inferior esquerdo, 4 inferior direito) e depois a posição de 1 a 8 a partir da linha média [1][2].

Um exemplo ilustrativo: coroa romboide, crista oblíqua, tubérculo de Carabelli na cúspide mesiolingual e três raízes apontam para um primeiro molar superior [1][2]. Se os traços de lado indicarem o lado esquerdo do paciente, o código é 26; se indicarem o direito, 16 [1][2].

Pontos-chave para revisão e provas

  • São 32 dentes permanentes; por arcada, 4 incisivos, 2 caninos, 4 pré-molares e 6 molares, contando os terceiros [1][2].
  • FDI: quadrante 1 superior direito, 2 superior esquerdo, 3 inferior esquerdo e 4 inferior direito; posições de 1 a 8 a partir da linha média [1][2].
  • Os decíduos usam os quadrantes 5 a 8 [1][2].
  • A raiz mais longa da boca é a do canino superior, que forma a eminência canina [1][2].
  • O incisivo central inferior é o menor e mais simétrico dos anteriores [1][2].
  • O lateral inferior tem ângulo mesioincisal reto [1][2].
  • O lateral superior é o dente que mais varia, segundo o capítulo consultado [1].
  • 1º pré-molar superior: oclusal hexagonal e cúspide vestibular parecida com a do canino; duas raízes é o padrão didático, mas a frequência foi de 31,9% a 75,1% entre amostras [1][2][3][4][5].
  • 2º pré-molar superior: oclusal oval, cúspides de mesma altura e uma raiz na maioria [1][2][3][4][5].
  • 1º pré-molar inferior: lembra um canino pequeno, com cúspide lingual sem função [1][2].
  • 2º pré-molar inferior: forma de três cúspides ou de duas [1][2].
  • A crista oblíqua é exclusiva dos molares superiores, e o tubérculo de Carabelli fica na cúspide mesiolingual do 1º molar superior [1][2].
  • As cinco cúspides do 1º molar inferior o separam do 2º, que tem quatro, mas não do 3º, que muitas vezes tem cinco ou mais [1][2].
  • 2º molar inferior: duas raízes no padrão, mas com canal em C em quase metade de uma amostra asiática [1][3].
  • Os terceiros molares são os dentes de maior variação [1][2].
  • Para o lado, combine vários traços; nenhum deles isolado é regra [1][2].

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Referências

  1. Emanuela Lidia Crăciunescu, Meda-Lavinia Negruţiu, Mihai Romînu, Andreea Codruţa Novac, Cristina Modiga, Borislav-Duşan Caplar, Cosmin Sinescu, Daniela-Maria Pop. Dental Anatomy and Morphology of Permanent Teeth (capítulo do livro Human Teeth – From Function to Esthetics). IntechOpen, 2023.

    DOI: 10.5772/intechopen.110223

    Consultar referência 1 ↗
  2. Catarina Maria Andrade Figueiredo Guimarães Maia, Jancelice dos Santos Santana, Sabrina Gonçalves Riatto, Vitória dos Santos Martins. Ninjas da Anatomia: anatomia escultural e processos patológicos – Apostila I – 2022.2 (capítulo Anatomia e Escultura Dental). Editora UNIESP (Centro Universitário UNIESP), ISBN 978-65-5825-134-7, 2022.

    Consultar referência 2 ↗
  3. Pan JYY, Parolia A, Chuah SR, Bhatia S, Mutalik S, Pau A. Root canal morphology of permanent teeth in a Malaysian subpopulation using cone-beam computed tomography. BMC Oral Health 2019;19:14, 2019.

    Consultar referência 3 ↗
  4. Bulut DG, Kose E, Ozcan G, Sekerci AE, Canger EM, Sisman Y. Evaluation of root morphology and root canal configuration of premolars in the Turkish individuals using cone beam computed tomography. Eur J Dent 2015;9(4):551-557, 2015.

    Consultar referência 4 ↗
  5. Alqedairi A, Alfawaz H, Al-Dahman Y, Alnassar F, Al-Jebaly A, Alsubait S. Cone-Beam Computed Tomographic Evaluation of Root Canal Morphology of Maxillary Premolars in a Saudi Population. BioMed Research International, 2018.

    Consultar referência 5 ↗

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ABNT NBR 6023

Como citar este artigo

ODONTOLOGISTAS. Anatomia dental externa: como identificar incisivos, caninos, pré-molares e molares permanentes. Odontologistas, 18 out. 2026. Disponível em: https://odontologistas.com.br/anatomia-dental-externa-como-identificar-incisivos-caninos-pre-molares-e-molares-permanentes-8a77445bee5e4d88813eedd13fe2f6c7/. Acesso em: 18 out. 2026.

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